19/08/08

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06/08/08

RP, zero hora. Há algo de Copacabana no refinado Boulevard

Seres humanos por trás das personagens. Fui em busca de quem vive sob as máscaras sensuais, no Boulevard, em Ribeirão Preto. Ressabiadas, as travestis (aqui eu escrevo no feminino, do jeito que eu falo) demoraram um tantinho para falar.
Em pouco menos de uma hora, em três esquinas, me contaram o que está aqui. Foi tudo sem gravar (elas não queriam o gravador), nem anotei no meu caderninho, porque tinha que olhar nos olhos delas. Senti que, se não fosse assim, não teriam confiado a mim pedacinhos da intimidade.
E o que dizer da garota-de-programa "dama de vermelho"? La rouge não quis papo. Mas escrevi o que já vi, passando algumas vezes de carro, pela Nove.
Abaixo, um pouquinho das doces e divertidas travas do refinado Boulevard, nossa Copacabana.

FOTO: JOYCE CURY (http://www.flickr.com/photos/jobafoto)
P.S.: O título acima quem deu foi a Rosana Zaidan, minha editora. Gostei e peguei também para o Proibidão.

A noite das sereias do Boulevard

Estacionou o carro na avenida Nove de Julho e subiu o quarteirão tilintando o salto fino, até a João Penteado. Tinha balanço no andar. Além do rebolado, mexia a cabeleira loira bem tratada. Era quarta-feira, dez da noite, e estava começando o ponto do travesti, no Boulevard, área central de Ribeirão.

"Não posso falar, meu pai é militar", desculpa-se Gabriela, 21, quando a reportagem se aproxima. Mas deixa escapar que o caso do travesti Andréia Albertini, a mesma do escândalo do Ronaldinho, tumultuou o lugar, e ninguém queria falar com a imprensa.

Recém-chegado do Rio de Janeiro, o travesti se envolveu em ocorrência policial com um médico, há pouco mais de uma semana. "Ela (a Ronaldinha) roubou o cliente, fez coisa errada, não era pra ficar aqui", sentencia.

De repente, Gabriela bate-boca com um rapaz de cabelo comprido que passa na outra calçada. Diz que dá em cima de seu marido, um garoto de programa do centro, quando ele a busca no Boulevard. "Essa daí não é nem travesti, não tem peito. Já pegou ‘Aids’ porque não usa camisinha", reclama, finalmente engatando a conversa.

O corpão turbinado é trabalhado desde os 15 anos. Tem prótese cirúrgica nas nádegas, e o peito cresceu à base de hormônio injetável, o mesmo que afina pele e inibe barba.

Toda produzida, diz que às vezes tem quem pergunte se é homem ou mulher. Fala que é Kinder Ovo. "Venho com um brinquedinho", brinca. "Eles têm a fantasia de transar com um homem com cara e vestido de mulher. É fetiche, né?".

A maioria dos clientes, diz, faz o programa como passivo. O preço varia de acordo com o serviço, partindo de R$ 30, o sexo oral. "Ontem ganhei R$ 280 num só programa; chego a tirar R$ 4 mil no mês".

O rendimento maior que o do marido causa estresse no casal, vez ou outra. Diz que pretendem deixar a "vida nas ruas" e abrir negócio próprio. "Podemos até comprar enxoval em Ibitinga e vender na rua. Muita gente ganha a vida assim".

O ciúme é outra pedra no relacionamento de mais de um ano. Conta que o marido detesta suas roupas curtas e os decotes, e tira da bolsinha de mão um micro-vestido que mais parece uma blusinha. "Trouxe pra colocar aqui, sem ele ver", confessa, mexendo a mão esquerda, em que usa aliança. O marido não põe o anel, mas tatuou o nome "dela" no braço.

Pergunto se têm planos de adoção de filhos, já que a Justiça não nega mais esse direito a casais gays. "Imagina, já tenho uma", rebate. A criança tem oito anos, fruto da única transa com uma mulher, aos 13 anos. Mora com o avô, a quem chama de pai. "Ela me chama de irmão", diz, na única vez em que se refere a si no masculino.


FOTO: JOYCE CURY (http://www.flickr.com/photos/jobafoto)

(A versão "editada" do texto foi publicada em 03/ago/08, no jornal A Cidade: http://www.jornalacidade.com.br/noticias/70559/a-noite-das-sereias-do-boulevard.html)

De short, estilo Lara Croft

Em meia hora, os travestis tomam o "miolo" do Boulevard. O bairro, de dia, recebe a classe A em lojas que contratam seguranças de ternos.

À noite, "bomba" com restaurantes moderninhos e três casas noturnas, de mauricinhos, pagodeiros e rappers. E com os carros novos, muitos importados, que vão atrás de quem faz programa.

Nas vitrines, manequins de plástico exibem elegantes grifes de revistas. Nas esquinas, os travestis dominam com o estilo Lara Croft. Usam short e pochete agarrada às pernas, como o personagem de Angelina Jolie em Tomb Rider - é nesse bornal que carregam camisinhas.

O nariz de Jolie também faz sucesso. Em breve, estará no rosto de Bruna, 23, por R$ 3,5 mil. "O bumbum eu financiei há cinco anos", diz.

O investimento valeu a pena. Foi para Milão, Itália, e trouxe R$ 250 mil, após três anos. Comprou casa e carro para a mãe.

Quer voltar para a Europa e juntar outro pé-de-meia, agora para si. "Até os 30 anos, quero ter uma floricultura, sou muito boa com plantas", assegura.

Pretende manter um orquidário - orquídeas são suas preferidas- no quintal da futura casa, num condomínio. "Sou ‘enjoada’, quero uma sala toda de vidro", planeja.

Passado

Com a mesma pochete de Lara Croft, Monica, 25, ainda ensaia o estilo "trava". Começou a interferir no corpo há três meses, para virar travesti e fazer programa. "Eu era ‘menino’, até então. Morava há três anos com um advogado em São Paulo, ele me bancava", conta.

Sem cabelo comprido, usa peruca sintética. Mas já nota efeito do hormônio feminino no corpo. "A perna começou a encorpar", mostra as coxas.

Mesmo com pouco tempo no ponto, também demonstra vontade de deixar a rua. "É humilhante", dispara. Mas não diz se já tem noção de como abandonar a atividade.

Afirma que sente saudades e tenta ligar para os pais, numa cidade da região. Em vão. A família, fiel em uma igreja tradicional, não fala com ele ao telefone.

Monica já foi membro da mesma igreja, até os 18 anos.Chegou a tocar guitarra numa banda da comunidade. Quando a repórter pede para ele cantar algum hino dos seus preferidos, o travesti engasga. "Por favor, não me faz voltar ao passado, dói demais", pede.

FOTO: JOYCE CURY (http://www.flickr.com/photos/jobafoto)

(A versão "editada" do texto foi publicada em 03/ago/08, no jornal A Cidade: http://www.jornalacidade.com.br/noticias/70559/a-noite-das-sereias-do-boulevard.html)

Misteriosa dama de vermelho da Nove

GÊNERO MENINA
Muda, estática, a garota de programa vira o rosto, na Nove de Julho, quando a reportagem pede entrevista, ao contrário dos travestis da rua de cima. Não responde nada, nem precisa.

O figurino basta para dizer sobre a personagem. Vermelho cereja é o que ela veste. A cada noite, exibe uma roupa diferente. Nos dias de frio, vale bota com meia-calça, minissaia e sobretudo vermelho.

Já vestiu um impagável vestido preto com três camadas de babadinho e galão vermelho nas barras franzidas. Por cima, casaqueto vermelho.

Mas nenhum modelito é tão charmoso quanto o vestido à la Marilyn Monroe, rodado e, claro, vermelho.

Desculpe-me a moça, que já deve ter passado dos 30 há algum tempo. Sua beleza não é lá especial. Há garotas mais bonitas que ela, na Nove. Nenhuma tão enigmática.

Quem seria a atriz sob o vermelho? E os homens atraídos pelo seu poder? Segredos que Nefertiti já decifrava, à base da púrpura de Tyr, no Egito antigo.

Ela dá o tom na orla do Boulevard, onde meninas e meninos viram sereia, quando a noite cai.


FOTO: JOYCE CURY (http://www.flickr.com/photos/jobafoto)
Não fotografamos a dama de vermelho porque ela nem entrevista deu. Então, vai foto de uma top trava mesmo.

(A versão "editada" do texto foi publicada em 03/ago/08, no jornal A Cidade: http://www.jornalacidade.com.br/noticias/70559/a-noite-das-sereias-do-boulevard.html)

04/08/08

Black president e a sucessora




Nneka Egbuna é mais uma maravilha da Nigéria. A Erika Santos, minha amiga, me deu a dica, fui lá e conferi.
Hype e engajada, Nneka solta vozeirão pra falar da conjuntura sócio-econômica de seu país, até hoje vivendo sob os efeitos da guerra.

Não por acaso ela sempre diz ter sido influenciada por Fela Kuti, o Che africano. The black president foi perseguido, preso e torturado por peitar os políticos nigerianos nas décadas de 60, 70 e 80. E ainda foi um vulcão musical, o pai do afrobeat (no e-mule tem álbuns dele, e no youtube tem parcelas de um doc, o The Black President, isso porque ele se candidatou à presidência do país, em 79, mas foi impugnado pelo governo). Fela morreu super novo, em decorrência da Aids – ele teve, num momento da vida, 28 mulheres; imagina o que o gatão fazia além da cerca.

Voltando ao presente, Nneka tem um quê de Lauryn Hill, o que já é demais. Mas tem personalidade própria, e um vozeirão maneiro. Também põe muito hip hop e reggae nas suas músicas.

Nas fotos, a capa de um dos álbuns da moça, No longer at ease, e uma do Fela. Ele freqüentemente ficava sem camisa, nos shows. Nos documentários, aparece sempre só de sunga agarradinha. No meio da mulherada. Acho que já ficava assim pra não ter tanto trabalho, na "assistência" ao harém.

Santa Nigéria


A Nigéria, aliás, desponta por aqui na literatura com a linda-de-morrer Chimamanda Adichie. A guerra que assolou seu povo – e sua família – também está presente nos seus livros, como Meio Sol Amarelo. Chimamanda veio ao Brasil em julho, na sexta Flip, em Paraty.

Na foto, Pepetela, escritor angolano, e Chimamanda. Eu que fiz o retrato.